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segunda-feira, 5 de março de 2012

O Espírito da Água



Os copinhos de plástico arrumados ao redor da jarra transparente, formavam um arranjo circular e curioso, que aguçava a imaginação das crianças que vez ou outra entravam no salão esperando a hora do objeto de desejo ser liberado para o consumo. Cupcakes não fariam melhor e a ansiedade infantil já começava a contagiar os mais velhos presentes, que lançavam olhares dissimulados para a mesa afastada no canto da sala.

Um e outro bebê choravam e eram embalados pelo movimento das pernas das mães, mas relutavam no choro até que um pai envergonhado pelos olhares críticos vindos dos componentes da mesa resolve sair e respirar a fresca da noite, contrastante com o ar pesado e quente que duelava com os barulhentos ventiladores de teto do ambiente.

O Ritual ainda estava no meio... Já acabara a oração inicial embalada por uma música orquestrada que lembrava a Ave Maria, já houvera a troca de confetes entre o palestrante e os dirigentes, o pedido de silêncio por uma senhora firme e os recursos áudio-visuais já tinham sido explorados – O hino de São Francisco de Assis, acompanhado em canto pelos presentes e enfim a palestra do dia ilustrada por slides, que falava como todas as anteriores, na importância da caridade, da benevolência, das provas e da aceitação.

Volta e meia, Francisco e André eram citados, e excertos de suas obras exemplificavam o ensinamento do Palestrante. A dirigente lembra que há no lugar um estudo sistematizado sobre as obras do último autor e a importância de adquiri-las.

Desavisados, alguns participantes, neófitos, sedentos de conhecer, se inquietavam nas cadeiras de plástico, fugindo por instantes da atmosfera real do lugar e forçando a vista para enxergar vultos (inexistentes), espíritos (não presentes) e algo que enfim mostrasse o que destoava no Espiritismo das velhas igrejas... A ausência de Kardec e de outros pensadores espíritas na fala dos presentes suscitou a dúvida de que era realmente aquele, o endereço conseguido na internet, do Centro Espírita do bairro.

Os pensamentos incautos, foram interrompidos pela despedida do palestrante,pelos avisos gerais e pelo levantar apressado da platéia que se dividiu entre a fila para uma saleta anexa e a saída, não sem antes avançarem quase todos para os cupcakes, digo, para os copinhos d’água abençoados pelos espíritos que respondiam pela casa.

Os mais necessitados, substituíam os copinhos de café pelos de água, aumentando a dose do remédio espiritual...sem temer superdosagem ou overdose de proteção.

Na saleta ao lado, as mãos suspensas sobre as cabeças submissas, davam benção, permissão e direção para seguirem em paz para suas casas até a semana seguinte. Um último copinho de água fluidificada - que realmente não estava sólida em nenhum dos copinhos - fechava o ritual tão inesperado por sua mesmice.

Do lado de fora, uma lufada inesperada de vento seca o rosto choroso dos bebês, entra na salão e dança em volta da jarra que tem um resto de água morna e em seguida uma chuva gostosa começa a cair lentamente sobre os neófitos que caminham até os carros estacionados. E ninguém apressa o passo.

- Chuva inusitada numa noite tão abafada! Um verdadeiro milagre de Deus. Disse um.
- Feito o Espiristimo? Interrompe o outro.
- Feito o Espírito da água, ri o primeiro apontando para o céu. Fenômeno natural e milagrosamente simples. Te encontro mais tarde na net naquela comunidade que fala de Kardec...

quinta-feira, 1 de março de 2012

O Espírito do Vento


Quem nunca se viu as voltas em dúvidas sobre situações que remetem a experiências espirituais? Sonhos inusitados com cores e tons diferentes dos habituais onde reencontramos pessoas especiais que já fizeram o trajeto de volta ao mundo espiritual ou mesmo com pessoas desconhecidas que intrigaram nossa imaginação...sonhos históricos, onde vivenciamos episódios inusitados e detalhados de outras realidades que fogem à nossa...

O inesperado muitas vezes vem no momento de vigília, naquele relance de visão de algo que passou e parece ter deixado um rastro de luz, um cheiro gostoso no ar, um frio gelado apesar das janelas estarem fechadas.
Encontrar aquela pessoa que não vemos há anos e sobre a qual falamos no dia anterior ou acabamos de pensar, também sacode nosso imaginário ou nossa curiosidade.

Decifrar algo que não está catalogado no Google, nem tem o respaldo de nenhum meio científico, sempre nos cataloga na categoria de meros crédulos leigos e supersticiosos.

Mas, nesta balança onde de um lado pende a matéria e do outro o espírito, usar o contrapeso da razão é sempre prudente, mesmo que esta racionalidade nos empurre para caminhos não convencionais.

O primeiro dever de casa é o de derrubar as paredes que construímos com tijolos frágeis da credulidade e substituí-los por alicerces que venham ao encontro de nossa inteligência, que apesar de limitada pela vastidão do desconhecido, ainda é o norte saudável da nossa condição humana.

Sabemos que nossa mente é poderosa, mas não temos dons ou superpoderes, podemos sim, condensar vivências, desejos, conhecimentos esquecidos em nosso inconsciente e tudo isto pode ser revertido em sonhos inusitados, editados por nossa mente tão criativa quanto a daquele carvalesco da Unidos da Tijuca. E tal qual o público de uma escola de samba, nos surpreendemos com as criações formidáveis deste carnavalesco emocional chamado mente, que tantas vezes converte nossos desejos ou nossos medos em fantasias, sonhos, visões tão reais que as dúvidas quanto a sua autenticidade ou realidade seriam pecado se pecados existissem e também não fossem fruto de nossas fantasias e temores.

Ahhh! Mas nem todas as peças podem ser creditadas ao cérebro! Inocente tantas vezes quando o real culpado é o vento que trás cheiros familiares ou inusitados. O vento, este culpado que corre rápido levando consigo as provas do crime, carregando-as como as trouxe, silencioso e transparente.

Nossa mente, o vento...e onde fica o fenômeno espiritual? A verdade do Espiritismo? Aquela que nos diz que o mundo espiritual está aqui do nosso lado, tal qual uma dimensão que não enxergamos por não termos todos, enquanto encarnado, o sentido necessário à sua percepção? A que nos informa que os homens desencarnados deslizam ao nosso redor, arraigados às suas paixões carnais? Aquela que nos vislumbra que os espíritos podem sussurrar aos nossos ouvidos seus conselhos e verdades condizentes com seus graus de evolução? A que nos quase surpreende quando informa que os eles podem se fazer visíveis se necessário, mesmo que nossos olhos não tenham sido preparados para ver ou nossos ouvidos para ouvir, avançando pelas fronteiras da nossa ignorância.

Frágil, insegura, subversível é a linha que separa o real do imaginário. Sim, porque não tenha dúvida de que o mundo espiritual é real e que as orientações fundamentadas na Doutrina Espírita são autênticas e apoiadas na fé racionada, fé esta que clama à nossa razão a cada vez que duvidamos, que oscilamos nossas incertezas na balança onde oscila a crendice cega e a realidade, realidade não menos maravilhosa e espetacular, pois nos permite experienciar o espetáculo de estarmos espíritos encarnados, “evoluintes”, fazedores de nós mesmos e de nosso amanhã infinito.

Sopra por aqui um vento silencioso que trás cheiro de chuva, enquanto um sol tórrido queima as telas na parede... Um olhar curioso se debruça sobre a janela e o fenômeno se revela no jardineiro do prédio ao lado, molhando o jardim. É o verdadeiro espírito do vento. E a fé continua queimando do lado de dentro, fortificada pela verdade, sempre...

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011


Carnaval
Folia e Nostalgia

Umas das primeiras fotos minhas que lembro, foi a de uma garotinha barriguda, com os cabelos curtos e cacheados, vestida apenas com uma fralda, uma faixa de miss atravessada e uma coroa. Deve ter sido o primeiro carnaval e a primeira fantasia (não minha, mas a dos meus pais, para ser mais exata, do meu pai, o folião da dupla).

Os próximos que me recordo já foiram em guria, no salão do único clube da cidade. 4 matinês anuais, salão cheio, guaraná, vidrinho de plástico de lança perfume cheio de água...muitos confetes, serpentinas e purpurinas que davam um trabalho danado para tirar.

Os blocos Sujos invadiam as ruas e era um misto de extase com choro, pois os mascarados assustavam de verdade!

Das matinês para a noite...Ainda criança, o primeiro esboço de um carnaval mais adulto. Na ala das crianças (indo para a adolescência) no bloco mais famoso da cidade. O nome era FLOR do MAL. Auge dos anos 70. A fantasia era de algodão crú com uma flor vermelha que fazia alusão à verdadeira flor do mal que já adentrava o coração dos jovens e procupava as famílias.

Logo os clubes foram fechando as portas...o carnaval (ou a caricatura dele) deslizou para as praias, os batuques e o axé passaram como tratores em cima da fantasia e o calendário virou finalmente para um tempo de pouca fantasia...

Na adolescência, ainda nos bailes de clube, inevitáveis paqueras de carnaval...hawaianas, colombinas, índias, marinheiras...rolos de fantasias a deslizar por uma parada de 4 dias no rélógio do tempo.
Beijos sob o céu impecavelmente estrelado de fevereiro sob a melodia de Bandeira Branca...


"A educação pode tudo: ela faz dançar os ursos."

Wilhelm Leibniz


terça-feira, 15 de julho de 2008

Reminiscências...


À alguns anos atrás, eu tinha um sonho de certa forma recorrente...era um lugar, provavelmente em outro país. Uma subida íngreme de um chão de pedras (paralelepípedos), um lugar bem aberto ao fundo, um céu sem poluição. Era só o lugar...não me lembro de outras cenas ou personagens.
Certa vez assisti a um filme que mostrava um lugar bem parecido.
Hoje, navegando na internet, me deparei com esta imagem. No meu sonho não era tão colorido assim, as construções me pareciam brancas, mas o resto é bem pertinente...só reminiscências.

(Abel Manta - Lisboa e o Tejo)

terça-feira, 4 de março de 2008

Conforme prometido...O Urso Faminto.


Certa vez um urso faminto perambulava pela floresta em busca de alimento. A época era de escassez. Porém, seu faro aguçado sentiu o cheiro de comida e o conduziu a um acampamento de caçadores.

Ao chegar lá, o urso, percebendo que o acampamento estava vazio, dirigiu-se para uma grande fogueira, ainda ardendo em brasa e dela tirou uma enorme tina de comida.


Quando a tina já estava fora da fogueira, o urso a abraçou com toda sua força e enfiou a cabeça dentro dela, devorando a comida.


Enquanto abraçava a tina, começou a perceber algo lhe atingindo. Na verdade, era o calor da tina que o estava queimando. Ele estava sendo queimado nas patas, no peito e por onde mais a tina encostava.


O urso nunca havia experimentado aquela sensação; interpretou as queimaduras pelo seu corpo como uma coisa que queria lhe tirar a comida.


Então, começou a urrar muito alto. E, quanto mais alto rugia, mais apertava a tina quente contra seu imenso corpo. Quanto mais a tina quente lhe queimava, mais ele apertava contra seu corpo e mais alto rugia.


Quando os caçadores chegaram ao acampamento, encontraram o urso praticamente sentado, recostado a uma árvore próxima à fogueira, segurando a tina de comida. Ele tinha tantas queimaduras que o fizeram grudar na tina e, seu imenso corpo, mesmo morto ainda mantinha a expressão de estar rugindo.


"Quando terminei de ouvir essa história do mestre Jomano, percebi que, em nossas vidas, por muitas vezes abraçamos certas coisas que julgamos ser importantes.

Algumas delas nos fazem gemer de dor; nos queimando por fora e por dentro, e mesmo assim, ainda as julgamos importantes.

Temos medo de abandoná-las e esse medo nos coloca numa situação de sofrimento, de desespero. Apertamos essas coisas contra nossos corações e terminamos derrotados por algo que tanto protegemos, acreditamos e defendemos. Para que tudo dê certo em sua vida, é necessário reconhecer, em certos momentos, que nem sempre o que parece salvação vai lhe dar condições de prosseguir.

Tenha a coragem e a visão que o urso não teve. Tire de seu caminho tudo aquilo que faz seu coração arder. Solte a tina, solte a tina... Quando soltá-la perceberá que você pode libertar-se, e que com certeza, tudo vai dar certo." (César Romão - Do Livro: "Tudo Vai Dar Certo")

A Dor da Mudança



Refletindo sobre o artigo do Professor Marins: O Sapo Cozido, me coloquei a pensar na dor e no sentimento de medo que invade as pessoas diante das mudanças .

Para quem não conhece a historinha ela é assim: Se você colocar um sapo vivo na água fervente ele irá pular longe, se salvando. De imediato ele identificará o perigo da nova temperatura. Se você colocar o sapo vivo em uma panela de água fria e for aquecendo gradualmente a panela, o sapo fica lá até morrer cozido.

Moral da história: Não assuste o sapo senão ele foge de você. Engane o sapo, finja que não é necessária nenhuma mudança drástica e vá enrolando o bichinho com pequenas e quase imperceptíveis mudanças, daí ele não sente, ele não percebe. Este sapo gosta mesmo de ser manipulado não é?

E os humanos? Estou fadada a acreditar que quando se sentem ameaçados pulam mais alto que sapo em água fervente. O ser humano e suas incongruências...conheço gente que é ótima para dar conselhos quando o assunto não é com ela. Aí falam em ouvir o outro, em troca de idéias, em CEDER...rs. Acontece que chega um momento que a questão não é mais com o outro, é com a gente mesma, e aí? Vem o medo absurdo e desproporcional de sair da zona de conforto, mesmo que a zona de conforto esteja machucando (lembrei agora de outro texto chamado O Urso Faminto - qualquer hora posto aqui).
O "pulo" do humano ao perceber que algo se mobiliza para a mudança, faz com que além de pular longe ele contra-ataque.

Ouvimos então palavras mal ditas, duras ao extremo, dificuldade de ouvir o outro com tranquilidade, reatividade desproporcional. E muitas vezes o discurso teórico de: O diálogo é importante, vira: Os incomodados que se mudem. Rs

Por que será que a mudança assusta tanto? Me pego a refletir onde está o nosso botão da homeostase, que a princípio ajudaria na adaptação ao novo. Acredito que por isto tanto Alzheimer ultimamente. O exercício da criatividade, do inusitado, do quebrar a cara, do tirar a viseira, sair o quadradinho existencial tem que começar a ser feito. E ser adulto não esta definido pela data de nascimento, mas por uma postura coerente na hora que o bicho pega.

Quando o coração aperta, a respiração foge, o ouvido fecha, a garganta se prepara para o grito ou as pernas para a fuga, é hora de contar até 10 e vasculhar no livro teórico da nossa maduridade, sair a busca do capítulo: M U D A N Ç A... E tentar fazer bonito, sem histerismo, sem revanchismo, sem usar EPI para o "confronto".

Mudar não dói, o que doi é lutar com inimigos invisíveis e se manter estático num mundo em movimento. E deve doer também, perceber que a crosta de maturidade que construimos, cai à sombra da primeira contrariedade.